Localização
A
fonte das Piçarras localiza-se em Caneças, podendo chegar-se até ela por
quatro ruas: a rua da Fonte dos Castanheiros (a que se acede a partir do largo
Manuel de Arriaga, no centro da vila), a rua da Fonte das Fontainhas, a rua da
Fonte das Piçarras e também pela rua do Pinhal Verde.
Descrição
A
fonte é sustentada por cinco arcos abatidos, sendo os dois primeiros década
extremidade, a entrada para o escritório e para a sala da bomba de água, e por
quatro arcos em ogiva, sendo os arcos alternados entre si, por sua vez as
colunas que suportam os arcos, remetem para a representação das cordas que
aparecem no estilo Manuelino.
A
fonte das Piçarras, marcada por um forte espírito
revivalista, procura ser uma reconstituição do estilo Manuelino. Toda a
fonte, o entablamento e a cornija, apresenta um trabalho rendilhado na pedra que
remete para a arte portuguesa de Quinhentos.
O
friso da fonte, que está inserido no entablamento, apresenta todos os símbolos
característicos do verdadeiro estilo Manuelino. Podemos ver cabeças de leão
que servem como escoadores e, por esta ordem: as 5 quinas, a caravela, a esfera
armilar de D. Manuel, e a cruz da ordem militar de Cristo.
Outros
motivos ornamentais com desenhos inspirados nos relevos do Mosteiro dos Jerónimos
podem ser apreciados nas paredes e tecto da fonte.
Na
parede lateral, existe uma janela que dá acesso à sala da bomba. A janela está
envolta por altos-relevos sugerindo torres de castelo.
Na
mesma parede existe um painel de azulejos alusivo à fonte com a seguinte
quadra:
“Esta
fonte das Piçarras
Tem utilidade e graça
Está entre três caminhos
E mata a sede a quem passa”
e
ainda dois escudos portugueses. Já na parede lateral esquerda somente existe
uma janela que deixa transparecer o interior do escritório.
O
tecto está decorado com rosáceas, onde antes estiveram pendurados lustres.
O
projecto da fonte, datado dos princípios do século XX, deve-se ao seu proprietário
e fundador António Mateus dos Santos
História
A
fonte das Piçarras é uma das mais antigas fontes privadas de Caneças, tendo o
seu 1.º centenário sido realizado em 1936.
O Sr. António Matheus dos Santos, fundador da
fonte, tinha formação em Belas-Artes e possuía uma oficina onde executava os
seus trabalhos que depois eram vendidos em Portugal e no Brasil.
Em 1895, ele iniciou o projecto e a maqueta da
fonte, de acordo com o testemunho da sua neta, Sr.ª Teresa Matheus, que se
recorda de ver na oficina do avô, a maqueta feita de greda.
Não se sabe ao certo quando se terminou a construção
da fonte, mas pensa-se que foi por volta de 1939/1940.
Esta fonte teve sempre como único objectivo, a
exploração económica da sua água e embora a autorização legal só tenha
chegado através da portaria 5 de Abril de 1933, a sus água já era
comercializada mesmo antes das obras da fachada da fonte terem começado, ou
seja, a exploração da água já era feita antes de 1895.
Após o
falecimento do senhor António Matheus dos Santos, sucedeu-lhe seu filho Armando
Matheus dos Santos, que continuou com a oficina do seu pai e também com a
exploração da água.
Dizia-se, e alguns ainda o dizem, que a água de
Caneças faz bem à saúde e foi por esse motivo que esta teve tanto sucesso.
No início, a água era colocada em bilhas com um
formato muito próprio. Estas, depois de seladas com trapos, eram colocadas nas
carroças e levadas para Lisboa, onde eram vendidas pelos águadeiros a 4$00
(0,02€) cada. Mais tarde, as bilhas passaram a ser seladas com rolhas de cortiça
e levadas para Lisboa através de camionetas.
O
texto publicitário da fonte das Piçarras era o seguinte:
“Água francamente mineralizada, pura, fina e
digestiva. Tem todas as propriedades de uma boa água de mesa. Entregue ao domicílio
no próprio dia da captação, nas características bilhas de barro que lhe
conservam a frescura, devidamente seladas, ao preço de 4$00. Verificar sempre o
selo de garantia e o verbete de captação.”
Todos domingos vinham grupos de visitantes de
Lisboa para ver a fonte e para que esses grupos pudessem recordar mais tarde a
fonte das Piçarras, eram-lhes oferecidas pequenas bilhas de recordação
seladas com pequenos pedaços de seda colorida.
As
fontes de Caneças tiveram o seu apogeu nas décadas de 1930/40/50. A exploração
da água das fontes não era uma actividade que trouxesse grande sustento para
aqueles que lá trabalhavam nem para as suas famílias, resumindo-se as fontes a
pequenas unidades industriais.
Em
1932, o Sr. Armando Matheus dos Santos, escreveu no seu diário, que os águadeiros
da fonte das Fontainhas iam à fonte das Piçarras buscar água, pois a água
das fontes das Fontainhas ao longo do tempo foi ganhando um forte sabor a ferro
e o caudal de água que abastecia esta fonte foi diminuindo.
Um dia as garrafas de vidro apareceram e a
credibilidade nas bilhas de barro caiu consideravelmente, isto porque se dizia
que as selhas, onde eram lavadas as bilhas, só por serem de madeira não tinham
higiene e sendo assim as bilhas também não tinham a higiene que era precisa.
Os serviços sanitários exigiram que estas pequenas indústrias também
tivessem um sofisticado sistema de engarrafamento, mas o dinheiro não chegava e
embora, entre 1962 e 1968, ainda se tenha tentado juntar dinheiro para esse
sistema de engarrafamento, não foi possível comprá-lo. Assim, quando foi
pedida a renovação da autorização para a exploração da água, esta não
foi concedida.
Não se sabe ao certo quando é que as fontes de
Caneças deixaram de funcionar, mas tudo indica que tenha sido por volta dos
anos 60.
Comentário
Quando este trabalho foi iniciado a Fonte das Piçarras,
porque inserida numa propriedade privada, encontrava-se à venda e estava
praticamente degradada. Entretanto, a fonte foi vendida e o novo proprietário já
começou o processo de restauro e é com grande admiração que podemos dizer
que hoje em dia ainda há pessoas, que ao contrário de algumas das nossas
autoridades, se preocupam em manter o património que afinal de contas é de
todos nós.
Para concluir gostaríamos de agradecer à Sr.ª Teresa
Matheus, que tanto nos ajudou quer com informação bibliográfica quer com
informação fotográfica e que tanta paciência teve para connosco.
Texto
realizado pelas alunas da turma G do 10.º ano:
Iolanda Pereira, Sandra Pascoal, Sandra Ferreira, Verónica Silva